by - dezembro 24, 2017

- E então? Preparado para mais um ano sendo a decepção da sua família? - Theo perguntou enquanto assoprava a fumaça de seu cigarro na cara do Edudo.

- Mas é claro, estou treinando há anos para proporcionar a eles este desprazer - Edudo respondeu enquanto tentava prender seus cabelos pretos em um coque samurai, ele falhava miseravelmente e se posicionava de costas para mim entregando o elástico de cabelo em um pedido silencioso para que eu o ajudasse. - E você, Flora? Preparada para ser a filha perfeita pela décima sexta vez consecutiva?

-  Ha, eu ando tanto com vocês que já sou uma delinquente passiva. - Conclui o coque samurai e dei tapinhas no ombro dele para indicar o serviço completo.

- Fló, você precisa começar a conhecer uma galera. Ano que vem, você estará por sua conta e risco. - Theo me lembrou, acontece que ele e Edudo estavam prestes a começar o sonhado terceirão, enquanto eu era um ano mais nova e desbravava os mistérios do segundo ano.

- É, ajudaria se nas festas você conversasse com alguém que não fosse a gente, ou seu irmão - Edudo completou a sessão ''vamos pisar na Flora''. - Você poderia ser amiga da Letícia, ela sempre está tentando se aproximar de você.

- Por favor, me dá um tiro - supliquei. Letícia era a namorada do meu irmão, ela não tinha realmente algo ruim, ela era perfeita, mas em níveis que chegava a ser um exagero, estava sempre feliz, com os cabelos loiros sempre brilhantes e em cachos perfeitos, e não acho que alguém já tenha visto alguma espinha ou cravo em sua pele perfeita. Mas ela simplesmente não era o tipo de pessoa com quem eu me via tendo qualquer conversa relevante.

- Bem, amanhã é um novo dia. - Theo disse enquanto apagava seu cigarro.

- Pra mim é exatamente o mesmo dia. Uma escola nova com as mesmas pessoas. - Falei com desanimo. Nosso colégio havia sido comprado por uma grande rede de ensino que decidiu fechar a unidade em que estudavamos e transferir todos os alunos para uma unidade central que era enorme, aparentemente eram mais de quatro mil alunos.

- Eu estou empolgado. Não diminua minha empolgação. - Theo tinha essa coisa em sua personalidade em que ele se empolgava com qualquer coisa e com a mesma velocidade com que se interessava por algo, conseguia ligar o foda-se.

Edudo, ou Eduardo para os que não são íntimos, era seu oposto. Era extremamente racional e demorava a admitir que gostava de alguma coisa, ou de alguém. Se apaixonou uma vez na oitava série, e mesmo três anos depois sempre que se lembrava da história entrava em uma bad fodida.

Estavamos sentados no meio fio da casa do Theo e eu morava no final da rua. Eles iam para uma festa, a última das férias, e insistiam para que eu fosse junto, mas se tinha uma coisa que eu odiava era ir em festas. Levantei, me despedindo dos meninos e começo minha curta caminhada.

Ao entrar em casa, no banco do jardim vejo Arthur e Letícia na maior troca de beijos da história, sinceramente me questionava como um nunca engoliu o outro sem querer, fecho o portão com cuidado para fazer o mínimo de barulho possível, e corro para dentro da casa. Minha roupa cheirava a cigarro, meu cabelo, minha alma, eu sempre voltava desesperada por um banho depois de sair com o Theo.

Fiquei no chuveiro mais tempo que o normal, estava revezando entre cantarolar algumas músicas aleatórias e simular a escola nova na minha cabeça. Volto para o quarto com uma toalha enrolada no corpo e outra no cabelo, levo um susto ao abrir a porta e me deparar com a garota loira impecável deitada na minha cama usando seu celular para tirar selfies no espelho.

- Oi Fló, o Arthur foi passear com o Loop e falou que eu podia esperar aqui - Ela se sentou na cama em um pulo e exibia um sorriso reluzente.

- A cama dele não é a com lençol cor-de-rosa - Eu disse erguendo uma sobrancelha, esperava ter sido direta o bastante.

- Mas a com lençol cor-de-rosa fica de frente para o espelho, e eu realmente preciso postar uma foto, faz tempo que não atualizo o insta. - Letícia falou com um tom de voz tão confiante, que se tivesse um nome se chamaria "Tom-de-Voz-Confiança-Extreme".

- Que seja. - Abri o guarda-roupa para separar alguma roupa, nesses momentos eu desejava ser um menino para poder usar as roupas do meu irmão, mas isso não é um empecilho, peguei uma calça qualquer, uma das camisetas de flanela do Arthur e uma blusa branca e estava saindo de volta ao banheiro para me trocar.

- Essa camiseta não é do Arthur? Ele estava usando ela da última vez que saímos, com uma camisa preta por dentro, realmente lindo. - A loira falou como quem queria se provar com PhD na matéria - E pode se trocar aqui, flor. Não sinta vergonha de mim, nós somos família.

- Família... - Resmunguei enquanto fechava com força a porta do quarto deixando Letícia encarando-se no espelho.

Talvez a confiança relamente deixasse a pessoa mais bonita, meu irmão era bonito, considerado pelas garotas o mais bonito da escola, mas eu conseguia passar despercebida. Poucas pessoas vendo nós dois juntos já havia questionado se eramos parentes, talvez a gente consiga ser bem diferente...

Quando voltei para o quarto, Letícia estava mexendo em meu guarda-roupa.

- Você não tem nada útil para usar na festa, ainda bem que eu já esperava por isso. Usa aquilo. - A garota loira disse apontando para um vestido que estava colocada na cama do Arthur - Se vocês são gêmeos, você usam o mesmo número de sapato? Eu não sabia, então nem trouxe, porque eu não tenho nada trinta e oito. Mas esse seu saltinho deve servir.

- Pode parar. Eu não vou na festa. Alguém já te falou o quanto você é invasiva? - Falei perdendo o controle da voz a cada palavra dita. Letícia apenas me olhava com as sobrancelhas erguidas - Sai do meu quarto. Sai.

Me joguei na cama, respirando fundo. Até que ouvi o som da maçaneta. Quando vi que era o Arthur quem estava atrás da porta dei um suspiro aliviado. Como eu iria lidar com a Letícia? Como eu ia dizer pra ela que eu não ia a festa porque eu me sentia um peso morto? Que eu queria desaparecer? Para o meu irmão era mais fácil, ele de alguma forma sempre sabia a coisa certa a se dizer e assim eu ia um dia de cada vez, me aceitando um pouquinho mais.

- Eu acho que a nova escola vai ser legal, apesar que nós termos que ficar em salas separadas, acho que vamos ter um ótimo ano - Arthur estava sentado na minha cama acariciando os lençois sem fazer um real contato visual, mas ele sempre fazia isso e sempre funcionava, porque eu me sentiria mal de quebrar a felicidade dele igual eu fazia com o Theo - Vamos jogar 'uma palavra'.

Nós dois eramos gêmeros. Idênticos. Sempre dividimos quartos e gostos pessoais, seriamos realmente parecido se não fosse a divisão desigual de confiança e auto-estima. Eu sentia que tinha sido amaldiçoada desde o dia em que nasci, 23 de setembro de muitos anos átras, nós dois haviamos 'desabrochadi' no primeiro dia da primavera, mas só eu recebi um nome rídiculo: Florência.

O jogo 'uma palavra' havia sido inventado pelo Arthur quando, na primeira série, ele me encontrou chorando porque a professora não deixou que nós dois fossemos uma dupla, naquele momento ele pediu para que em uma única palavra eu descrevesse o que a deixava triste, eu respondi que era a solidão.

- Solidão. - Falei de frente para o espelho, olhando para Arthur através do reflexo, ele agora passava a mão pelos cabelos negros pensando no que dizer. - Aparência. Rosto.

- O jogo é uma palavra, não três. E eu acho sua aparência e seu rosto lindos. - Ele disse fazendo uma pose para o espelho enquanto pegava o celular no bolso da calça para tirar uma foto.

- Não, por favor, eu estou horrível - Falei virando-me de frente para meu irmão.

- Não, sua atitude está horrível. A Letícia falou que você não queria ir na festa e que foi grosseira com ela.

- Por que você ainda namora ela? Ela age como uma criança de doze anos. Ela tem ciumes de mim! Eu nasci com você, não é possível qu ela pense que pode ficar mais próxima que isso...

- Na verdade, ela pode- Arthir fez uma cara maliciosa e segundos depois foi atingido por uma almofada. Começamos a rir, daquelas risadas gostosas que levam algum tempo até recuperarmos a respiração - O RG dela diz que ela tem dezesseis anos, e ela só gosta muito de mim. - Ele completou se levantando e saindo do quarto

Eu estava sozinha com meus pensamentos novamente... Uma companhia perigosa.

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